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Luta Corporal

 É noite e chove incessantemente, estacionado numa rua penumbra e de raro movimento, dado as condições do tempo e o avanço do horário, um carro com seus vidros totalmente embaçados testemunha o que provavelmente poderia ser a perda de um réu primário, um atentado ao pudor, uma atitude desavergonhada e digna de constrangimento, mas, sobretudo, de muita libido. Quanto mais se intensifica a chuva lá fora mais se aquecem os corpos aqui dentro, há uma tensão líquida instalada entre eles, uma ardente volúpia no olhar, uma vontade de se atracar numa luta corporal, sensual, instintiva, feitos dois bichos que se rendem ao chamado da natureza e devoram-se num apetite crescente, incessante e voraz. Os corações palpitando, os nervos tensos as bocas molhadas já salivando a luxúria. Encaram-se frente a frente, não há mais volta, apenas o desejo pulsante, ardente, incontrolável. Atracam-se.

Natureza Selvagem

Não havia quem não o temesse, pois habitava na natureza um animal terrível, uma besta-fera que insistia em destruir tudo o que encontrava pela frente. Era guardião do medo e da morte e ninguém podia lhe fazer frente que logo era devorado pelo seu apetite voraz. Podia estar na terra, na água e no ar, nada escapava a seu faro de predador. Pássaros, peixes, mamíferos, todos eram perseguidos, capturados e dizimados. Nem o feroz leão, nem o grande urso polar, nem mesmo o rinoceronte podiam enfrentá-lo.     Nada escapava das suas garras, caninos ou do fogo avassalador que lançava sobre suas vítimas. Este horrendo ser não tinha piedade e tampouco conhecia limites. Insaciável, havia levado à extinção milhares de espécies. E, de tão perigoso, representava uma ameaça, inclusive, a si mesmo. E o que mais surpreendia neste grotesco e assustador animal era o fato dele ser o único civilizado dentre todos os demais.

Anunciação

  A tarde era preguiçosa e de sol escaldante, com formigas agitadas em seu vaivém, até o surgimento das primeiras nuvens negras carregadas com seus raios e trovões. Um vento forte e úmido começou a levantar as folhas no chão, logo estava envergando os galhos nas copas das árvores e espalhando toda a gente que corria para se abrigar. Os primeiros pingos grossos e abundantes atingiram a terra que logo perfumou o ar. Poças começaram a se formar, e, num instante, as águas se precipitaram a escoar feito rios que surgiam caudalosos por entre as calhas dos telhados e as canaletas no asfalto, onde crianças travessas deitavam para se refrescar e dar gargalhadas. O calor, antes sufocante, foi se dissipando conforme a tempestade varria toda a paisagem ao redor. Então, lá no horizonte, ao alcance da vista encantada, um arco-íris pintou o céu. Andorinhas em revoada anunciavam a chegada do verão.

Num piscar de olhos

  Fazia um dia bonito e o trânsito fluía melhor que nos outros dias, se sentia feliz, acabara de ser promovido no emprego, e seu casamento já não estava mais em crise. Até sua saúde andava melhor depois que abandonou o cigarro, com bastante dificuldade é verdade, mas se sentia orgulhoso de si mesmo era um homem de propósitos e quando decidia algo era pra valer. Pensou que talvez já estava na hora de ter um filho, Marta o vinha pedindo já algum tempo, mas relutava, não antes de pagar a casa própria e de que ela quitasse o financiamento da faculdade, ainda restava a dívida do carro, mas isso era o de menos, tudo agora se arranjaria. Um filho encheria de alegria seu lar e ele deixaria ao mundo o legado de sua existência. Começou a cantarolar uma canção de infância, a mesma que ouvia de sua falecida mãe antes de colocá-lo para dormir. Cochilou, piscou os olhos e de repente um forte estrondo esmagou todas aquelas imagens entre ferragens, sangue e sonhos. 

Dia de Praia

  Foi o último dia de verão, o último banho de mar, uma despedida. O dia estava lindo, ela estava linda e a vida pulsante, o coração pulsante, o sol pleno. Entraram no mar e a água era uma delícia a vida era leve e as ondas moviam seus corpos que dançavam inquietos, soltos e salgados. Curavam-se dos dias fechados, cinzas, opacos. Riram por que rir faz parte dos bons encontros, dos momentos de descontração e confiança. Não traziam segredos, nem dissimulações inúteis eram o que eram e só. Não criavam complexas narrativas acerca da vida ou dos desejos, sabiam que eles existiam e que era natural que assim fosse e que cada qual tinha os seus e que nem sempre eles eram compatíveis. Não havia conflito. O encontro era de sol e mar e ambos queriam aproveitar. Os dias cinzas voltariam, certamente, o que era inevitável, mas até então, era mergulhar de cabeça no presente já que o amanhã será sempre outro dia, de praia cheia ou areia vazia.

Entrada VIP

  Na porta do céu houve uma grande aglomeração, uma intensa névoa encobria o paraíso e, curiosos, todos queriam descobri-lo. Será que os leões eram realmente mansos como se via na revista A Sentinela ? Na porta, um São Pedro imenso e inquiridor recolhia as passagens de quem chegava ao seu destino. Um bispo inconformado com seus bilhetes falsos pedia uma audiência com Deus; um velho político propunha um bom acordo para acessar o paraíso; uma criança escapou por entre as pernas do santo e correu livre adentrando ao Éden. Já eu, aflito, procurava, entre os bolsos e as lembranças, o bilhete de acesso, já praticamente certo de que não o encontraria.

Fugitiva

  A palavra lhe fugiu dos lábios deixando-o em mudo silêncio. Procurou em suas lembranças, mas não sabia como chamá-la. Arrependido, pensou que não devia ter confiado tanto, afinal ela sempre foi muito saidinha e um tanto quanto volátil. Em que bocas havia se metido? A quem se entregara agora de maneira fortuita e casual? E, sobretudo, será que voltaria à segurança de seu vocabulário, prometendo nunca mais abandoná-lo? Aflito, foi ao dicionário na esperança de encontrá-la. Eram tantas as palavras, mas nenhuma delas sabia de seu paradeiro. Cada uma dizia uma coisa diferente. Confuso, fechou-o. Talvez a resolução de um caça-palavras o ajudasse, mas nem isso. Solitário e resignado apanhou um romance na cabeceira de modo a se distrair daquela preocupação. Pois não é que ali, em meio a uma narrativa de encontros e desencontros, foi que, inesperadamente, reapareceu sua palavra? De súbito, fechou o livro e pensou: “Daqui você não me escapa mais.”

Embarque

A confusão começou ainda no embarque. O casal de gralhas fez um escândalo quando um furão quis furar a fila, pois o tempo já estava fechando e dava-se a volta na arca devido à quantidade de espécies ainda por entrar. O jabuti, que havia chegado antes da lebre, era o primeiro na rampa, porém agora se arrastava num passo lerdo e paciente, o que irritava a todos, exceto o bicho-preguiça. Mais atrás na fila, a galinha, mal vista pelas peruas, esquivou-se do galo para ficar dando sopa para um pavão todo exibido. Nova confusão e foi pena para tudo que é lado. Dizem ter sido a cobra que alertou o galo, pois sabia que ele era de briga, e ela também não gostava da galinha, porque a penosa nunca a deixou chegar perto dos seus ovos. Aquilo sim foi o ovo da discórdia, com o que todos concordaram. Cães e gatos tomaram partidos diferentes e a confusão só fez aumentar. Todos falavam ao mesmo tempo e sem parar, ou melhor, latiam, miavam, cacarejavam, urravam, berravam. Até que o tamanduá, cheio de ...

(des)leituras do conto O Dinossauro

METEORO Nem chegou os homens já não estavam mais lá. KAFKIANO Quando acordou, não foi trabalhar. PESADELO Quando acordou, ainda estava nele. MOTEL Quando acordou, o desgraçado já não estava lá. BRASIL Não acordou, pois o dinossauro ainda estava lá. 

Dia de Santo

  Era um santinho sendo levado pelo vento, pisado por sapatos sujos e desprezado à beira de um bueiro entupido por centenas de outros concorrentes numa disputa acirrada, cara e, por vezes, suja. "A vida é dura” pensava ele naquela situação tão baixa, tão vil, ali na boca do esgoto e com a cara amassada no chão. Seu sonho era estar protegido numa confortável carteira Louis Vuitton juntamente com dinheiro e cartões de crédito e débito, valorizado como um bem maior, importante como só os eleitos. Porém, ali na sarjeta, o que poderia esperar como fim? O tempo começava a fechar e com a chuva viria a enxurrada, então ele seria levado como um lixo qualquer, misturado às xepas de cigarro, cascas de banana e papéis de bala que desaguariam no obscuro subterrâneo onde se acumulam os dejetos da cidade. Logo ele, um santinho, desceria ao inferno da podridão humana. “Quanta decadência, meu deus!” Porém, era domingo, dia de eleição, ouviu passos se aproximarem, alguém se abaixou para apanhá-l...

Chamada de Emergência

  Entrei no ônibus, me sentei e tomei o celular, companheiro fiel de todas as horas do meu dia. Olhei fixamente para sua tela, de forma hipnotizada, mas não sem me dar conta de estar sentado à janela. Sempre a preferi em relação ao corredor. Não que necessariamente eu olhe para fora tendo o telefone em mãos, contudo, mesmo que alheio à paisagem, eu gosto de sentir a brisa que bate em meu rosto tão disperso quanto meus pensamentos. Nesta minha última viagem tive um comportamento um pouco incomum, me peguei de súbito detido na hipótese de lançar o aparelho para fora, o mais longe que eu pudesse. Num impulso, minhas mãos se agarraram firmemente a ele e, quanto mais eu pensava em arremessá-lo, mais forte o prendia entre os dedos. Ninguém que estivesse ao meu lado poderia imaginar minha aflição, não havia quem pudesse intervir. Suava frio e sentia mesmo um leve tremor no corpo, um ranger de dentes. Aquela angústia evoluiu para um desespero. Foram instantes de aflição dentro daquele ...

Abaporu

- E para que essa mão tão grande? - É pra trabalhar melhor. - E para que esse pé tão grande? - É para pisar melhor a uva. - E para que essa cabeça tão pequenininha? - É para não se encher de perguntas, menino.  

O homem que só tinha mais um dia de vida

Foi num sonho que Deus lhe revelou que ele teria só mais um dia de vida. Quando acordou, a primeira coisa que pensou foi no que faria com aquele seu último dia. Tomaria um avião e, enfim, viajaria para conhecer a Europa, ver a Mona Lisa no Louvre, subir a Torre Eiffel, caminhar às margens do Sena, mas nem passaporte ele tinha e, se não dava para viajar, quem sabe se ele surtasse, mandasse tudo à merda, lançando para fora o que levava engasgado há anos e não podia cuspir, afinal tinha uma vida para ganhar, mas só o que ganhou foi uma gastrite que evoluiu para uma úlcera nos últimos tempos e agora, com o pé na cova, tinha medo de não se libertar, de não perdoar, dizem que o perdão salva, nessa hora só o que queria era a salvação, pois tratava-se de um homem devoto. Talvez estivesse ficando louco e até andaria pelado por aí, totalmente livre, mas se sentia preso às vergonhas e aos complexos de aparência e de virilidade. Diabos, nem na hora da morte se livraria de suas amarras. Pensou e...

Sumária

Ouviu-se alguns gritos de comando, seguidos de vários disparos e o baque seco de um corpo suspeito tombando ao chão. Houve quem comemorasse brutal arremate. "Bandido bom é bandido morto". Mortos também ficaram os pais de JMS que jamais retornaria para casa devido a tanta violência que escorria pelas ruas da cidade. 

Sem fôlego

Asséptico

Tudo começou naquele ano de pandemia. Não que não estivesse habituado a certo exagero com os costumes de higiene, do tipo que girava a maçaneta com o cotovelo para não ter que pôr a mão no trinco da fechadura, mas as coisas só viriam a piorar.   A princípio pensou que talvez fosse por influência de sua mãe que era compulsiva por limpeza. Dona Gertrudes se pudesse banhava os peixes do aquário e não havia um só grão de poeira que ela não avistasse a uns sete metros de distância.   Ele tomava três banhos por dia, no inverno. E quando soube da pandemia pensou que se o mundo fosse um lugar mais limpinho nada disso teria acontecido. O álcool gel já fazia parte de sua rotina bem antes de inflacionar nas prateleiras das farmácias e dos supermercados. Seu estoque, que antes era de dois litros, passou para vinte, pura precaução.   Por precaução também passou a usar máscara de proteção de três camadas, protetor facial e luva de látex, em casa. Para sair à rua a indumentária era...

Linha 102

Atrasada por conta da demanda de serviço, correu para não perder o ônibus, entrou no exato segundo em que a porta já começava a fechar-se e ficou algum tempo ali nos degraus espremida entre os demais passageiros. O dia foi cansativo e tudo o que ela queria era chegar logo em casa e descansar, naquela lotação, mal podia observar as janelas que mesmo que estivessem abertas não davam conta de aliviar aquele abafamento. A cada parada o cobrador pedia que todos dessem um passinho à frente, naquele aperto um homem tirava vantagem da situação, incomoda ainda tentou se esquivar sem muito sucesso. Na parada seguinte ela alcançou a roleta estranhou que cobrador não era o mesmo, mas pensou que ele pudesse estar de folga ou doente, pagou a passagem com os últimos trocados que tinha no bolso, o valor exato da viagem e ficou ali tentado se segurar nas barras de apoio em meio ao corredor. Percebeu que dois jovens que estavam sentados conversavam distraidamente enquanto ao seu lado uma mãe em pé se ...

A Boneca

Foi um terrível tombo e a pobrezinha não levantou mais, as outras crianças a princípio assustadas depois lastimosas, não queriam perder a amiguinha, que era uma boneca, então decidiram escondê-la. Assim, seus pais não a levariam e elas continuariam a ter com quem brincar. Arrastaram-na para a casa de bonecas e a acomodaram a mesa enquanto fingiam tomar o café da tarde. – O problema das bonecas é que elas não interagem muito.  Queixou-se uma das meninas, mas a outra emendou. – Talvez ela só esteja cansada e queira dormir, vamos levá-la para a caminha. Deitaram-na, cobriram-lhe e cada uma lhe deu um beijo na testa desejando-lhe bons sonhos. Depois, em alvoroço, correram para brincar no pátio.

Avenida Brasil

Venho distraído em meus pensamentos até que, ao dobrar a esquina, sinto um esbarrão. - Ddeessccuullppee-mmee -respondemos ao mesmo tempo num olhar de relance. Já estou pronto para seguir em frente quando me detenho na imagem do outro que, com igual estarrecimento, me olha como quem fita o futuro. Eu volto vinte anos no tempo, estou mais magro, sem nenhum fio de cabelo branco e ainda não possuo rugas ao redor dos olhos, mas tenho o mesmo olhar que agora é de espanto. - Aonde vai tão apressado, meu jovem? - é   o que eu disse de súbito, como quem fala consigo diante do espelho. - Vou para o futuro, não é para lá que todos   vão? - responde-me com a mesma e familiar voz a que estou acostumado. Então sorrimos e ele acrescenta: – Até que o futuro não me é dos piores. - Guarde suas gentilezas para as mulheres que ainda estejam por vir. – São muitas? – Você descobrirá. Olha para os lados e então me indaga :    –Vive na mesma cidade todos esses anos? Sinto que a...

Comichão

  Da porta de entrada esticou bem o pescoço para enxergar melhor, olhou demoradamente de maneira a varrer todo o ambiente. Só então, se dirigiu até a poltrona que lhe pareceu entre todas a mais acertada. Acomodou-se, descansou seus pertences no colo, esticou um pouco as pernas, inclinando-se para trás. Logo voltou à postura mais ereta, esfregando as mãos e estalando os dedos, virou-se para os fundos, olhou para os lados e para frente de maneira insegura e inquieta. "Mas que droga". Ainda não parecia ser aquele o melhor lugar.