Tutuca

 

    Tutuca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À Claudete Bonfati Geraldes.

“... tinha dia de se ter medo, ocasião, assim como tinha dia de mão de tristeza, dia de sair tudo errado mesmo, - que esses e aqueles a gente tinha de atravessar, varar da outra banda”. 

Guimarães Rosa

 

O poeta Casimiro de Abreu cantou em versos sua infância num tom bucólico e de nostalgia, para ele o passado era a imagem da pureza e da alegria. Já eu conto em prosa minhas lembranças não tão nostálgicas como as suas visto que a candura de seus versos contrasta com o esvair da inocência presente neste relato. Todos temos nossas memórias e retomá-las é lançar mão do passado para viver o presente. Rememoro, então, a aurora da minha vida, a minha infância vivida e os anos que não voltam mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lar

Lembro que cresci numa cidadezinha do interior, de nome indígena como muitas que existem neste país. Meu pai era um beberrão avesso ao trabalho, tinha uma enorme barriga de chope e sua fisionomia era sempre carrancuda apesar de boêmio.  Já minha mãe, embora jovem e bonita, só fazia trabalhar e reclamar das bebedeiras do marido e de quanto havia se arrependido em juntar os trapos com um traste como aquele.

Morávamos em um bairro simples e tranquilo, com suas ruas cheias de casas de madeira, pequenos jardins e varandinhas ocupadas por cadeiras de fio de nylon e samambaias penduradas na altura das janelas. Por vários quarteirões a paisagem se repetia de forma pacata e monótona. Eu, desbravador do meu bairro, conhecia cada esquina daquele lugar, cada um dos vizinhos, cada árvore no caminho. Por aquelas ruas e esquina se estendia todo o meu mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apelido

Católicos, meus pais me batizaram João, o mesmo nome do apóstolo de Cristo. Meu pai também se chamava João, assim como o pontífice da igreja naquela época. Porém, minha mãe, desejosa que o filho não saísse ao pai tratou, então, por chamar-me Tutuca, um apelido fácil e sonoro como um batuque, que logo pegou entre os familiares e amigos e se estendeu pela vida, caracterizando, assim, de modo vocálico e coloquial essa minha identidade social.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Traquina

Em casa eu era uma criança muito obediente, mais por medo que por respeito. Temia pai e mãe mais que fantasma ou assombração. Assim, deixava as peraltagens de menino para a companhia dos amigos ou para o terror dos vizinhos que me tinham como o menino diabo. Um traquina que estava sempre às voltas com suas presepadas e que por mais que apanhasse parecia não ter correção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Susto

Na rua em que eu morava havia outros três garotos, o Pedro que morava de frente e íamos à escola juntos, o Juca que vivia na única casa com piscina na vizinhança onde adorávamos brincar, sobretudo, nas tórridas tardes de verão e o Paulo, um ano mais velho, mentor das travessuras que a gente aprontava.

Não raro estávamos juntos, sempre aprontando alguma traquinagem, entre elas estava a brincadeira de bater às portas das casas e sair correndo para nos escondermos, fazíamos isso sempre que o sol descia, pois facilitava não sermos reconhecidos ou mesmo pegos pelos moradores da vizinhança. Certa vez eu combinei com o Paulo que ele bateria na porta da frente da casa do seu Benjamin, o velho rabugento do bairro, enquanto eu iria pelos fundos e faria o mesmo. O Pedro e o Juca ficariam à espreita dando cobertura. Como eu estava dentro do quintal, minha estratégia era pular o muro pelos fundos e fugir pela rua de trás no breu da noite como um pequeno demônio a atormentar o descanso de gente grande.

Seu Benjamin saiu pela porta de trás mais rápido do que imaginei e não consegui chegar a tempo de pular o muro, então me enfiei embaixo de um amontoado de tábuas no quintal e fiquei quase sem respirar ouvindo seus passos e xingamentos ao redor. Sabia que se ele me pegasse eu estava perdido. Então, tranquei a respiração e rezei para não ser pego.

Passei não sei quanto tempo ali embaixo, esperando até que ele entrasse e que tudo se acalmasse para, enfim, eu sair à rua novamente. “Dessa vez foi por pouco”, comentei, enquanto meus cúmplices riam do susto que levei. “Você é um cagão mesmo, Tutuca. Por que não driblou o velho e saiu na disparada pelo portão da frente?” “Verdade, a gente tá há um tempão esperando. Até sua mãe já veio te procurar.” Porém o medo é algo que nos paralisa e eu só sairia de lá com a certeza de que a barra estivesse limpa.  Depois de tanto temor eu passei a evitar aquele tipo de brincadeira e o olhar severo do seu Benjamim.

 

 

 

Livramento

Uma vez por mês recebíamos a capelinha com a imagem da santinha em casa. Nesses dias as orações eram mais fervorosas, o que aumentava o tédio e minha aversão aos símbolos religiosos. Porém percebi que minha mãe depositava dinheiro na caixinha de ofertas da santa, o que me fez arquitetar um engenhoso plano de furto. Esperei que ela fosse dormir só, como de costume, pois meu pai raramente se encontrava em casa durante à noite, e na surdina iniciei a execução de meu intento. Como a gaveta de ofertas estava trancada, logo percebi que não seria tarefa fácil.

Peguei uma faca de serrinha na cozinha e tentei, por entre um fino vão de gaveta, puxar as notas ou virar as moedas de modo a ficarem na vertical e escorregarem para fora da caixa. Ao virar a capelinha, a santa se desprendeu de seu altar, batendo contra o vidro e anunciando o roubo. Com o barulho minha mãe acordou e gritou do quarto: “Tutuca, é você? Que barulho é esse?” Sabia que se ela descobrisse que barulho era aquele eu dormiria quente naquela noite. Então respondi: “Sim, mãe, vim pegar um copo d’água e esbarrei na santa sem querer.” “Eu te mato se você derrubou a santinha!” “Não, não, mãe, não aconteceu nada, foi só um esbarrão.” “Então já para a cama e não me faça levantar daqui, ouviu!”. “Sim, mãe, já estou indo.”

Naquela noite meu anjo da guarda me livrou do crime e do castigo. Desisti do pecado e fui dormir sem nenhum vintém, porém são e salvo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

União instável

Meus pais nunca se entenderam, mesmo assim insistiam em ficar juntos, talvez por comodismo e necessidade. Minha mãe não tinha muita instrução apesar de ser perita em trabalhos domésticos, manejo da horta e criação de animais. Já meu pai, que também havia abandonado a escola, não era nada caseiro e seu companheirismo se limitava à mesa e à cama. Haviam se juntado por uma casualidade da vida e agora viviam as infelicidades de uma união mal sucedida. Eram raros os momentos em que não brigavam a ponto de se agredirem com palavrões e sopapos, chegando mesmo a irem parar na delegacia para justificar os sucessivos escândalos que promoviam para toda a vizinhança. Como cão e gato, eles se farejavam de maneira hostil e sempre prontos para o ataque.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vício

Uma noite meu pai chegou tão bêbado que era possível ouvir seus xingamentos antes mesmo do portão. Arrombou a porta com um chute e entrou feito um demônio alucinado. Minha mãe, que dormia com um olho aberto, saltou da cama e foi para meu quarto num desespero só. Assim que meu pai a encontrou, eles entraram numa luta corporal como se fossem duas feras a se enfrentar num confronto de vida e morte.

 Em desvantagem, ela conseguiu escapar em direção à cozinha. Na fuga arremessou-lhe uma panela de comida que o esperava em cima do fogão. Isso fez com que ele ficasse ainda mais descontrolado e apanhasse uma faca na gaveta da pia para se vingar. Nesse tempo entre ele abrir a gaveta e apanhar a arma, ela alcançou a porta e fugiu pela escuridão da madrugada.

Eu que havia acordado no susto assistia com pavor a cena sem saber o que fazer a não ser mijar nas calças e me encolher num canto, todo molhado. Depois disso, ele, que a perseguiu por uns instantes, retornou à casa, fincou a faca na mesa, e praguejou até o sono chegar. Eu não consegui pregar os olhos até o amanhecer quando, enfim, retornou minha mãe, exausta e trazendo mais um boletim de ocorrências nas mãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Família

Apesar das brigas domésticas, nossa família não era mal vista, ao contrário, até gozava de certa consideração naquela cidadezinha. Minha mãe por ser uma pessoa religiosa e exemplar dona de casa que não se dobrava para o cansaço e não parava de trabalhar um segundo sequer.

Meu pai por pertencer a uma conhecida família de agricultores da localidade, gente de crédito, que depois de vender suas terras, por conta da crise na agricultura, e dividir o capital entre os irmãos passou a viver de algum juro e de negócios, geralmente mal sucedidos, o que mudaria drasticamente nossas vidas com o passar do tempo.

 Também fazia parte da família o cachorrinho Samba, meu fiel companheiro. Logo falarei sobre ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O imaginário televisivo

Na estante da sala entre livros enciclopédicos, vaso de flores e porta-retratos havia um televisor Telefunken preto e branco no qual eu assistia aos desenhos animados, e minha mãe, à novela das oito, logo após o telejornal.

Geralmente eu a acompanhava e juntos vivíamos os dramas da ficção e as histórias que permeavam minha imaginação. Um professor que virava lobisomem em “Roque Santeiro” me enchia de espanto e curiosidade, e a música tema de abertura até hoje ressoa na minha lembrança.  Também lembro que durante os intervalos havia anúncios dos mais variados e para todos os públicos, desde tabaco e bebidas a cigarrinhos de chocolate que despertavam minha vontade de ser adulto sem deixar de ser criança.

 “Comprem a luneta para ver o cometa que vem aí!” Anunciava o comercial e mesmo que tivesse o apetrecho, provavelmente, eu não poderia vê-lo por não conseguir me manter acordado até o momento de sua passagem, pois o sono de menino nesses tempos era pesado e chegava tombando as pálpebras mal era servido o jantar. Depois fiquei calculando se viveria para uma segunda oportunidade ou se estaria dormindo novamente alheio ao movimento dos astros, às curiosidades da vida e à programação de tevê.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona Gertrudes

Na escola eu era um aluno entre regular e ruim. Não gostava da professora, dona Gertrudes, uma senhora magricela de nariz fino e bigodes que nos fazia repetir exaustivamente a lição. Sua aula era um tédio sem fim que roubava metade do meu dia, sentado em uma cadeira dura, de frente para um quadro-negro repleto de letras e números escritos a giz, o que me fazia espirrar, e que eram apagados antes mesmo que eu terminasse de copiar.

 Cada vez que isso acontecia, a “Dona Buço”, esse era o apelido que nós lhe demos, me chamava a atenção, ameaçava me descontar nota e enviava bilhetes que obviamente nunca eram entregues aos meus pais.

Certa vez, desconfiada da letra de minha mãe nos bilhetes que voltavam à escola, ela resolveu me acompanhar até em casa para se certificar de que esses de fato estavam chegando ao seu destino. Como já desconfiava que ela não soubesse meu endereço, caminhamos algumas quadras no sentido contrário à minha casa até que por sorte avistei uma residência que parecia abandonada, então parei e disse a ela que entraria para chamar minha mãe. Ela ficou desconfiada, mas assentiu em esperar na entrada, eu passei pelo portão que estava apenas encostado, corri para os fundos do quintal e saltei o muro chegando à rua de trás do quarteirão. Nem sei porque fiz aquilo, mas havia me livrado dela pelo menos naquele dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

Contraturno

Como minha mãe nunca perguntava como havia sido o meu dia na escola, eu não precisaria inventar nenhuma mentira para me safar. Chegava e jogava à mochila num canto e só me lembraria dela no dia seguinte quando voltasse à aula. Almoçava e logo saía à rua para encontrar os amigos.

Passávamos a tarde toda brincando na casa de algum deles ou nos aventurando pelo bairro, subindo em árvores e espiando por sobre os muros. Quando chovia, tomávamos banho de chuva deitados nas valetas para sentir a pressão da água que deslizava pelos nossos corpos. Jogávamos futebol na rua usando os chinelos como traves e eram épicas as disputas entre nós e os garotos que moravam na rua de trás.

Eu tinha uma bola de capotão que era o meu mais bem precioso, além, é claro, de uma Monareta aro 20 que me levava para as aventuras mais distantes em que eu podia pedalar. A felicidade era um rolar e rodar livres pelo mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Benzimento

Não sei se foi por conta do banho de chuva na valeta ou de alguma alergia, das muitas que tive durante a vida, mas o fato é que comecei ter comichões pelo corpo, seguidos de algumas feridas que se espalharam por pernas e braços. Minha mãe de pronto suspeitou tratar-se de cobreiro e me levou para a casa de Dona Durvalina, que após analisar as feridas confirmou o diagnóstico. Era necessário um tratamento contínuo e rigoroso. Primeiro ela circulou com uma caneta cada uma das chagas, aprisionando-as para que não se espalhassem mais, depois aconselhou uma infusão de ervas que era para fortalecer o organismo, e, por fim, eu deveria voltar a sua casa nos próximos sete dias para me benzer daquele mal.

“Eu benzo, Tutuca, de cobreiro brabo

Sapo, sapão, cobra, cobrão,

Aranha, aranhão

Eu te corto a cabeça

o meio e rabo.

Cobreiro brabo eu te vejo

a cabeça o meio e o rabo

Cobreiro brabo eu te sugo

Para que não te vejas mais

Cobreiro brabo eu te benzo

em nome de Deus e da Virgem Pura”.

A ladainha era repetida por várias vezes seguida de Pai-Nosso e Ave-Maria. Depois de benzido, Dona Durvalina depositava um galho de arruda atrás da minha orelha e me mandava para casa com sua habitual recomendação: “Vai com Deus e que seu Anjo da Guarda te guie.”. Ao final de sete dias eu estava curado. Dona Durvalina foi minha principal pediatra e, graças a ela, superei todas as enfermidades sofridas na infância.

Silêncio

Lembro o dia em que eu ganhei a Monareta, meu pai estava sóbrio e de bom humor, o que era raro, e me levou com ele ao bar da Galega, onde ele passava tardes e noites jogando cartas e bebendo com os amigos. O bar era uma espelunca animada, onde uma meia dúzia de mulheres servia bebidas, aperitivos e outras demandas da clientela. A Galega, uma mulher branca e alta que devia já ter uns quarenta e poucos anos, cumprimentou meu pai na chegada e perguntou se havia trazido o rapazinho para que virasse homem. “Homem ele já é desde que nasceu”. Todos riram, ele pediu um trago de cachaça e mandou que eu escolhesse um refrigerante para mim. Pedi uma garrafinha de tubaína e me sentei junto ao balcão.

 Meu pai começou dando as cartas e logo uma moça que parecia bastante íntima sentou em seu colo enquanto lhe servia outra dose. Aquele ambiente inusitado me enchia de curiosidade, não imaginava que pudesse existir um lugar daqueles, nunca tinha visto tantas mulheres simpáticas e com roupas tão curtas indo e vindo em direção às mesas ou entrando e saindo com os clientes rumo a um corredor que dava acesso aos fundos do bar.

Passado algum tempo eu comecei a me entediar, pois só os adultos podiam se divertir ali. Disse a meu pai que queria ir embora e ele me respondeu que jogaria só mais uma partida. Quando saímos já era tarde da noite. Teríamos que explicar para minha mãe onde estávamos até aquela hora. Ele me fez prometer que não diria nada e para compensar o meu silêncio, no dia seguinte fomos até a bicicletaria do bairro onde ele me comprou a Monareta.

 

 

 

 

 

 

 

Sentença

Certa tarde quando eu chegava de um passeio com minha Monareta, eis que eu encontro em frente ao portão de casa, conversando com minha mãe, nada mais nada menos que a Dona Buço. Aquilo me arrepiou dos pés à cabeça e eu senti que a coisa ficaria feia para o meu lado. Minha vontade foi dar meia-volta e nunca mais retornar. Mas minha mãe me avistou e com a habitual sutileza que a caracterizava, ordenou: “Passa já para dentro!” Ouvir essa frase era como receber uma sentença de morte. Minha face era um fiel retrato do pânico e do terror. “Guarda essa bicicleta e já pro banho”.

Tranquei a porta do banheiro e passei a tremer debaixo do chuveiro quente. Naquele momento eu me arrependi de todos os pecados que já poderia ter acumulado aos oito anos de idade. Minha mãe tinha um jeito peculiar de educar filho, pediu-me que fosse até o pé de marmeleiro, que apanhasse um bom galho e que trouxesse a ela, tudo numa santa calma de vulcão adormecido. Com a vara em mãos suas feições foram mudando enquanto ela limpava o galho se livrando das folhas. Meus olhos já estavam cheios de lágrimas e a palavra perdão prestes a saltar da boca.

Logo ela começou a relatar tudo o que ouviu da professora. Essa era a leitura de uma implacável sentença. Nem o choro, nem o pedido de clemência me livraram do açoite. Sua ira foi tão grande que a vara verde e flexível partiu em minhas costas e os vergões ficaram como dolorosos lembretes do castigo.

Ofegante, ela parou como um carrasco que cumpre com rigor e à risca seu ofício. Eu ardia em soluços, sentindo no corpo e na alma as cicatrizes de um tempo que a memória não apagou.

 

 

 

 

 

 

Castigo

Na escola as meninas brincavam de roda e os meninos de pega-pega, corríamos feito cavalos selvagens em disparada pelo pátio na hora do recreio. Lembro que numa dessas carreiras eu trombei de frente com a orientadora escolar. Uma senhora grande, severa de olhar amedrontador que tinha por hábito e profissão advertir os alunos de tudo que não podíamos viver.

Quando ainda zonzo e assustado olhei para cima e vi o que havia atingido, meu coração que já estava disparado, agora quase saltava pela boca. Ela me tomou pelo braço e me perguntou se eu não tinha modos, se aquilo era maneira de me comportar no intervalo. Eu sequer podia balbuciar qualquer palavra em minha defesa.

 Depois disso me levou para a secretaria e me fez ficar sentado até que o sino tocasse. Só então me mandou para sala de aula sem direito a lanche, banheiro ou diversão. A escola, desde cedo, tentou me ensinar que liberdade e prazer são coisas a serem reprimidas em detrimento da ordem e da obediência. Essas eram lições que a gente aprendia, mas que nunca ninguém entendia o porquê.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alforria

Porém, o soar do último sino na escola era como ouvir o som das trombetas celestiais anunciando a saída do purgatório. Corríamos em direção à rua e lá estava o paraíso em forma de liberdade. O vai e vem nas calçadas, o vendedor de picolés e o sol a refletir os sorrisos nas brincadeiras mais pueris.

O trajeto até em casa se alongava em travessuras, risos, novas descobertas e afagos em irresistíveis bolas de pelos macios que íamos encontrando pelo caminho. Amizades instantâneas que se entregavam a um regozijar de pura leveza e ternura.

Subir em pés de goiaba, ameixa e araticum que cresciam e se espalhavam à beira da estrada era saborear in natura o mais doce das nossas infâncias. “Onde?” “Ali bem na pontinha do galho.” “Consegui!” “Joga que eu pego.”  Depois de colhidas as frutas, a partilha e o sabor doce e intenso que ficou da infância.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João e Maria

Nós meninos não costumávamos brincar com as meninas, preferíamos a bola de gude à peteca, o pega-pega à cantiga de roda, o carrinho à boneca, o futebol à amarelinha.

 Mas nem por isso deixávamos de interagir, sobretudo, nas épocas de festa junina em que tínhamos que dançar a quadrilha na escola. Meu par se chamava Maria, uma menina esperta e comunicativa, que morava a duas ruas da minha casa. Às vezes voltávamos juntos, principalmente, nos dias de ensaio. Falávamos sobre a festa com a ansiedade do porvir. Ela usaria um vestido de chita. Eu pintaria um bigode com carvão, comeríamos algodão-doce e maçã do amor, correríamos ao redor da fogueira e viveríamos as alegrias prometidas daquela comemoração. 

Diferente dos meninos, Maria era delicada e muito atenciosa, ainda que turrona, a gente não combinava nas brincadeiras, mas adorávamos conversar e nunca perdíamos o compasso, o que fazia com que nossa amizade seguisse num ritmo alegre e vibrante como nas divertidas canções que embalam as festas de interior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pescaria

Meu pai tinha um Fusca bege e com ele fazíamos raros passeios de fim de semana. Eu adorava ir no chiqueirinho que era o bagageiro do carro. Olhava a paisagem que rapidamente ia se perdendo no retrovisor. Fotografias em movimento captadas pelas lentes curiosas de menino. A sensação de euforia quase não cabia dentro de mim e aquele Volkswagen era uma nave a vagar pelo espaço da minha imaginação.

Passada muita poeira e chão, chegamos à beira de um pequeno rio onde homens pescavam tranquilamente enquanto garotos banhavam-se à distância de não atrapalhar a pescaria. O sol reluzia quente sobre a fria água do regato. Entrei de mansinho, explorando o desconhecido, logo eu era um peixinho mergulhado em profunda felicidade.

Quando o sol se pôs no horizonte, recolhemos os peixes, varas, anzóis, chumbadas e voltamos como quem volta de uma aventura, saciados e em silêncio. Meu pai não era de muita conversa, e propriamente nunca foi um herói para mim, nem mesmo uma referência que eu admirasse, mas naquele dia a palavra pai me soou diferente. Desejei que todos os nossos dias fossem dias de pescaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cicatriz

Era uma tarde quente com o céu se armando para um temporal. No quintal de uma casa vizinha, um pé de manga envergava-se com suas frutas rosadas e maduras, um arriscado convite ao delito e ao prazer.

Planejamos o Pedro e eu, que aproveitaríamos o momento da chuva para a invasão, a cerca era de madeira e não muito alta, embora pontuda, um tapete de grama se estendia do portão até a mangueira no centro do pátio com a casa aos fundos.  Não tivemos que esperar muito até que o céu desabasse, uma chuva forte e volumosa acompanhada de ventania, relâmpagos e trovoadas. O tempo escureceu em instantes, era chegado o momento oportuno.

Saltamos a cerca e corremos na direção do nosso desejo. Mal alcançamos a árvore e o Pedro gritou: “Ela está vindo!” Em desespero parti em retirada, sem olhar para trás e de mãos ainda vazias.  A grama antes apenas molhada agora estava encharcada e escorregadia, o que tornava a fuga ainda mais arriscada. Ao tentar saltar a cerca, escorreguei, prendendo a perna entre suas ripas pontiagudas. Um profundo arranhão entre a virilha e o joelho ficaria estampado na minha pele até os dias de hoje como ardente lembrança de que, definitivamente, eu não tinha a mínima vocação para o crime.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuidados

Minha mãe me dirigia a palavra sempre no imperativo: “Vai já buscar uma agulha e o Merthiolate para mim!” ou então, “Pega o Neocid e um lenço e venha logo aqui!”.

Do tratamento contra piolhos eu não reclamava, apesar do forte cheiro do veneno e da coceira insuportável que me dava quando eles começavam a morrer. Depois vinha o pente-fino e apesar dos puxões de cabelo, eu gostava dos raros cuidados que recebia com a cabeça repousada no colo de minha mãe.

Porém, o que me afligia era a agulha perfurando e espetando meus dedos à caça de um inconveniente bicho-de-pé. De nada me adiantava o choro, minha mãe era persistente e até não extrair o bicho ela não desistia. Depois, a ardência do antisséptico, os olhos úmidos do choro e a sensação de estar purgado de todo o sofrimento físico de menino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Festa

Rojões, busca-pés e estalinhos anunciavam o dia de São João, bandeirinhas e luzes coloridas enfeitavam o pátio da escola, assim como chapéus de palha, remendos de retalhos e o xadrez davam o figurino da festa. Maria era um confete de felicidade em seu vestido de chita com laços nos cabelos e bochechas com pintinhas vermelhas, já eu, um foguete de euforia depositado em botinas de couro, envolto em retalhos e pintado a carvão.  A sanfona dava o ritmo da festa e a fogueira ardia ao cair da noite, em volta dela pais e professores brincavam feito crianças crescidas que eram.

Algodão-doce, maçã do amor, pipoca, pinhão, quentão davam o sabor daquela festança. Nós os meninos corríamos de um lado ao outro em algazarra, enquanto as meninas jogavam “uni duni tê” com as mãos e riam-se da distração. Alguns adultos tentavam a sorte na pescaria ou no jogo de argolas, já os casais levantavam a poeira do chão dançando em círculo, repletos de animação.

De um microfone, a diretora anunciou à quadrilha “Cavalheiros cumprimentem as Damas”.  Maria abriu seu vestido segurando-o na ponta dos dedos, enquanto se inclinava levemente em saudação. Num aceno levantei o chapéu e me dirigi a ela estendendo-lhe a mão. Rodopiamos em círculo, atravessamos túnel, seguimos em vaivém e alternamos em zigue-zague guiados pela cadência e o compasso da sanfona, do triângulo e do violão. Ali me folgava num instante de euforia, girando e girando em vibrantes acordes na música da vida.

 

 

 

 

 

 

 

Descoberta

Luiza era uma vizinha jovem e muito simpática, que sempre conversava com minha mãe por sobre a cerca de madeira do quintal. Casada com Túlio, um rapaz forte e trabalhador, formavam um belo casal que tinham por mim bastante afeição e apreço.

Às vezes eu era convidado a dormir em sua casa, e, mesmo não tendo muito que fazer lá, me agradava o simples fato de passar a noite fora. Uma dessas noites a vizinha me levou para o quarto para preparar a minha cama. Quando ela se abaixou para estender os lençóis, meus olhos, até então inocentes e distraídos, fixaram-se em dois belos pêssegos róseos, suculentos e graúdos que despontavam por baixo do seu decote, causando em mim um estranho desejo e ímpeto de prová-los.

Foi como se descobrisse a existência de uma suculenta fruta cujo gosto eu ainda não conhecia, mas muito intuía acerca do seu sabor. Fiquei tão tensionado com aquela espantosa descoberta que custei a dormir, meu corpo pulsava em palpitante euforia. Naquela noite, Luiza acendeu uma fogueira em mim, e como ardeu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pecado

Nos dias que se sucederam passei a visitar com mais frequência a casa da vizinha, ajudando-a com os afazeres domésticos e servindo de companhia em suas idas e vindas diárias. Estar ao seu lado passou a ser mais interessante que me juntar aos meninos do bairro. Ela via em mim um garoto gentil e educado, eu olhava para os seus contornos e desenhava um paraíso na minha imaginação, em cujo a árvore do pecado se via bela e frondosa para a cobiça dos meus viçosos olhos.

Porém, Luiza não era Eva para me entregar o fruto do conhecimento, me fazendo contrariar os desígnios de Deus e do seu Santo Sacramento.  O pecado que nasce da vontade, precisa de cumplicidade para se concretizar. Eu não era Adão. O Éden bem possuía macieira, mas a serpente, desta vez, não estava lá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Catequese

Não bastasse a escola, eu tinha que aos sábados pela manhã frequentar a catequese. A professora, uma jovem carola, se esforçava em nos ensinar o evangelho e assim como minha mãe, parte da ladainha cristã.

Estudar o catecismo chegava a ser mais entediante que as aulas da professora Gertrudes. Desse período tudo o que ficou foi a lembrança dos padres-nossos, ave-marias, credos e outras rezas que posso repeti-las de cor ainda hoje, com a mesma indiferença e ceticismo dos tempos de criança.

Recordo que uma vez eu perguntei à catequista como Deus, Cristo e uma pomba podiam ser a mesma pessoa.  Ela ficou um tanto desconcertada, mas disse que os mistérios da fé não são para serem questionados e sim contemplados, e que eu deveria rezar mais para comungar com o sagrado. Finalizou dizendo que Deus não se agrada de quem não tem fé.

Fiquei com receio de não agradar a Deus, mesmo desconfiando de sua Trindade, e tratei de memorizar o pai nosso, mas acho que o agravo já havia sido feito. Ao voltar para casa, caí da Monareta e desloquei o braço. Eu chorava de dor e pensava o quão pecador eu era. O castigo, me veio a galope. Passei a temê-Lo, assim como temia os meus pais. O arrependimento era o primeiro passo para o perdão, o próximo e mais inquietante seria a confissão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 Mentiras

Meu pai mentia para minha mãe, ela mentia para minhas perguntas, eu aprendia com o exemplo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Confessionário

Terminado o catecismo, cumpriríamos o Santo Sacramento da Comunhão. Eu estava entre a curiosidade de provar a hóstia e o medo de me confessar. Morria de vergonha dos meus pecados, e se Deus já os conhecia, por que deveria contá-los ao padre da paróquia que ao me ver aos domingos na missa, junto de minha mãe, pensaria, “Aí está uma ovelha desgarrada do rebanho do Senhor.”

Precisava mentir, inventar uns pecados leves, diferentes das travessuras que eu aprontava e dos desejos que me dominavam. Lembrei que entre os dez mandamentos estudados na catequese, não estava o de não mentir, levantar falso testemunho eu não faria, pois teria que falar apenas de mim, além do que honraria pai e mãe me espelhando em suas ações.

O padre me recomendou uma série de ave-marias e o pai nosso, e fez questão de reforçar o 4º mandamento de Moisés.  Saí aliviado e satisfeito. A catequese me resultara num engenhoso, porém autêntico cristão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Samba

Samba era o membro da família com quem eu mais me identificava, tínhamos quase o mesmo tempo de vida e passávamos horas juntos, brincando, passeando ou conversando. Ele era meu principal confidente. Entendia todas as minhas emoções e seu olhar companheiro atestava nossa cumplicidade. Sim, Samba sempre foi meu melhor amigo, fiel escudeiro e protetor. Bastava eu estar triste para vir me lamber e consolar.

Entre suas brincadeiras preferidas estava o cabo de guerra que fazíamos com qualquer coisa que estivesse à mão. Eu sempre o deixava vencer no final, logo, ele voltava para continuar a disputa. Assim, passávamos um longo tempo entre rosnados e risos, imersos no que eu poderia definir como felicidade. 

Porém, os momentos felizes também antecedem as grandes tragédias. A vida é imponderável e desde pequenos vamos nos apercebendo disso, mesmo sem querer. Foi assim quando Samba foi atropelado, uma morte absurda e inesperada. Um choque. Uma profunda angústia e enorme tristeza se apossaram de mim e eu não tinha mais com quem desabafar. Meu grande companheiro estava morto, por dentro eu também havia morrido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Copa do Mundo

Nas ruas, na escola e na televisão não se falava de outra coisa. Nomes como Zico, Sócrates, Casagrande e Leão estavam na boca e na esperança do povo brasileiro. Álbuns de figurinhas faziam sucesso entre a garotada. Eu colecionava o da Ping Pong. Acho que nunca masquei tantos chicletes em toda a minha vida, mais tarde o dentista cobraria a conta. Bater bafo passou a ser a sensação do momento. Também trocávamos as repetidas e negociávamos a um alto preço as mais raras. Uma dessas poderia valer outras 20 ou 30 figurinhas. Era a lei da oferta e da procura para quem nunca havia ouvido falar de economia.

Na escola estudávamos sobre os países participantes e o anfitrião México. Mariachis, sombreiros, bigodes, cores e pimenta, constituíam um universo distante e simpático à minha imaginação. A bola rolava nos gramados mexicanos e nos campos improvisados do meu bairro, meus amigos e eu escolhíamos o craque que cada um queria ser, representando a seleção canarinho em gloriosas disputas de várzea.

A cada partida aumentava a febre pela competição e a crescente expectativa de ver os craques da amarelinha levantar o troféu. Para nossa tristeza, o Brasil não levantou a taça. Não sei se pênalti é loteria, mas foi sofrimento. Aprendi que a frustração faz parte do jogo assim como da vida. Terminada a copa, a esperança se renovaria como sempre há de ser, bola pra frente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Circo

Outro espetáculo que me enchia de euforia era o circo, aquele “balão aceso com músicas e pastéis” como diria Oswald de Andrade, mesmo sendo de espetáculo simplório em que dois palhaços, um mágico e uma equilibrista faziam nossa alegria e ao mesmo tempo nos vendiam entradas, algodão-doce, pipocas e amendoins. O circo era pura magia para um garoto de oito anos vivendo a sua infância.  

Meus pais também gostavam do espetáculo circense e o picadeiro dava-lhes uma alegria singela, um riso solto e contagiante que se espalhava pelas cadeiras enfileiradas em semicírculo. Eu era todo entusiasmo, tensão, suspense e aplausos. Toda a alegria do mundo concentrava-se embaixo de uma lona colorida com serragem espalhada pelo chão e pessoas reunidas ao redor da fantasia. A realidade, muitas vezes dura e triste, não cabia ali, o circo era o lugar dos sonhos, da vida que se refletia em luz, cores e sorrisos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Histórias de Assombração

Meu tio Nando, irmão de meu pai, era um grande contador de causos, eu gostava dele, pois era o único adulto que se sentava comigo para contar histórias. As que mais me impressionavam eram as de assombro. Ficava arrepiado e quase não dormia depois, imaginando fantasmas e assombrações.

Lembro de uma de suas histórias em que num velho rancho de repouso havia uma aparição que assustava antigos tropeiros que por lá pernoitavam. Certa vez um corajoso viajante decidiu passar a noite no local e esperar pelo espectro. Chegada a hora, o fantasma assim se anunciou: “Me segura que eu caio.” Então o destemido tropeiro lhe disse: “Pois caia.” E a visagem se materializava em pedaços a cair do alto, ora uma perna, depois um braço, tronco e pôr fim a cabeça. Quando da queda desta última parte, o corpo se montou por inteiro, e então, o espírito do morto, agora livre da maldição, lhe contava sua sina.

Sempre tive curiosidade por saber qual era sua história, mas meu tio dava fim a sua narrativa, deixando-me por imaginar o que poderia vir depois. Tantas fabulações já passaram pela minha cabeça que não sei qual delas mais me assombra ainda hoje. Como já diria uma velha máxima española: “No creo en brujas, pero que las hay las hay.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Revolta

As histórias de assombração me assustavam, mas o que me dava mais medo era bater de frente com o Betão, um garoto grande e valentão que tinha uns quatro ou cinco anos a mais que eu e meus amigos. Ele vivia com sua avó e ninguém sabia do paradeiro de seus pais. Nas conversas da vizinhança se dizia que o pai estava preso por matar a mãe. Mas nenhum de nós se arriscava a perguntar se era verdade ou não. O fato é que Betão era pura raiva e ai de quem cruzasse seu caminho.

Certa vez íamos eu o Pedro, o Juca e o Paulo, convidar os meninos da rua de trás para jogar futebol, mas quando dobramos a esquina demos de cara com o Betão, nossa reação foi de susto e apreensão. Ele logo percebeu e perguntou o que as mariquinhas estavam olhando. Eu respondi que nada e baixamos a cabeça.

Furioso ele veio até mim e me deu um sopapo, seguido um pontapé que me lançou ao chão. Meus amigos correram desesperados. Eu ainda zonzo tentei me levantar para acompanhá-los, mas tomei uma rasteira e novamente dei de cara no chão. Por sorte, uma vizinha que acompanhava a agressão gritou para que ele parasse, dizendo que contaria para sua avó.

Ele então desistiu de seguir me batendo, mas me fez uma série de ameaças e mandou que eu sumisse dali. Levantei e corri em direção aos meus amigos. Nenhum de nós conseguia entender o porquê daquela brutal covardia. Já o medo e a revolta eram sensações que, para minha infelicidade, me acompanhariam cada vez mais de perto.

 

 

 

 

 

 

 

O mundo do gibi

Como já disse no início dessa história, eu não era lá um estudante exemplar, pelo menos para os critérios de avaliação empregados por Dona Gertrudes. Porém, se tinha uma coisa que eu gostava era de ler, sobretudo, as histórias em quadrinhos. Ficava um tempão em frente à banca de revistas namorando as últimas edições.  Tinha verdadeiro fascínio pelo colorido das páginas, os traços das personagens e suas aventuras, em especial as de Walt Disney ou de super-heróis como o Batman e o Superman.

Os gibis eram para mim, embora pouco acessíveis, a encantadora descoberta do prazer pela leitura. Era a imaginação embarcada num mundo de sonhos e fantasia. Nele eu também me transformava num super-herói que ganhava superpoderes e combatia as injustiças do mundo, derrotando vilões cruéis e vingativos.

Nas minhas histórias, pois eu também as inventava, a covardia era aniquilada pela coragem dos meus atos e o vigor dos meus músculos, tornando o mundo, antes ameaçado e em perigo, num lugar de paz e harmonia protegido pela implacável força da justiça. O mundo colorido das minhas histórias de gibi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona Claudete

A senhora que me salvou da surra que eu levava do Betão se chamava Dona Claudete, uma professora aposentada e que também me salvaria da repetência naquele ano. Ela gostava de dar atenção aos garotos e sempre nos aconselhava a estudar, dizendo que a única coisa que ninguém poderia tirar da gente era o conhecimento. 

Sempre perguntava como estávamos indo na escola, o que havíamos aprendido e o que mais gostávamos de fazer lá. Obviamente que estudar não era o mais agradável da escola, mas Dona Claudete fazia com que as lições parecessem fáceis e até divertidas. A gente gostava de ouvi-la falar sobre assuntos que estavam nos livros de um jeito que todos nós entendíamos. Minha vontade era de que dona Claudete voltasse à sala de aula para ser a nossa professora.

Depois de revisada a lição ela nos oferecia café e biscoitos como prêmio por nosso interesse e dedicação. Saíamos de sua casa sempre mais inteligentes do que quando chegávamos. Dona Claudete me fez gostar de aprender. Foi minha primeira professora de fato e até hoje sou grato por suas lições. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Solidariedade

Graças aos ensinamentos de Dona Claudete eu passei a melhorar na escola, as lições de Dona Gertrudes já não eram mais tão difíceis assim, e aos poucos fui ganhando confiança e até me arriscava a levantar a mão para responder as suas perguntas.

Consegui um carimbo com estrelinha no meu caderno e uma recomendação: “Continue assim”.  Continuei a frequentar a casa de dona Claudete, não só pelo café com biscoitos, que eu adorava, mas pela paciência e afeto que eu não encontrava nem em casa nem na escola. Dona Claudete era mestre em humanidade e foi com ela que aprendi o significado da palavra afetividade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Separação

Certo dia, quando cheguei da casa da dona Claudete, minha mãe ordenou que ajudasse meu pai a colocar suas coisas no Fusca. Não precisei perguntar o que estava acontecendo, seus gestos e semblantes me diziam tudo. Desta vez não houve gritos nem sopapos. Só um silêncio, enfim, resignado. 

Ele me olhou num gesto de despedida e disse para eu me comportar, pois agora eu seria o homem da casa. Entrou no carro, deu a partida e acelerou rua afora. Fiquei olhando do portão o Fusquinha avançar algumas ruas, dobrar uma esquina e sumir de minhas vistas.

Naquele instante eu senti que jamais faríamos outra pescaria juntos. Meu pai, que nunca esteve muito presente, agora, por fim, se tornaria ausente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Constatação

Apesar de tudo, ainda tive mais sorte que o Betão, pensei.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tempos difíceis

Com a ausência do meu pai, minha mãe teve que começar a trabalhar fora. Já não tínhamos mais recursos devido a uma sucessão de negócios malfeitos somados à longa e extensa fatura da vida boêmia que ele sempre levou.

Para piorar, ela me mandava pela manhã à mercearia do Seu Manoel comprar pão, leite e carnes, pois sabia que no fim do dia os preços já teriam aumentado.  Nunca a vi tão cansada e irritada como naqueles tempos. As surras se tornaram mais frequentes e eu apanhava por qualquer motivo.

No dia em que, voltando da mercearia, me descuidei e quebrei alguns ovos no caminho, ela, então, quase me quebrou o corpo todo de tanta pancada. Depois, profundamente abalada, prostrou-se numa cadeira, escondeu o rosto com as mãos, cotovelos apoiados na mesa, desatou a chorar aos soluços. Eu também chorei, não pela surra que havia levado, mas pelo desalentado pranto de minha triste mãe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obrigações

Com minha mãe trabalhando fora eu tive que começar a fazer os serviços da casa, era uma rotina cansativa, enfadonha e interminável. Tinha que levantar e logo arrumar a cama, lavar a louça do café, e, depois da escola, varrer a casa, tirar o lixo e encerar o chão que era assoalho de madeira. Minha mãe gostava de tudo limpinho e brilhando. E ai de mim se não ficasse do jeito que ela queria.

Quando o mato crescia vigoroso no quintal cabia a mim pegar na enxada para capinar. Com tanto trabalho doméstico eu quase não encontrava tempo para brincar. Morria de raiva quando meus amigos me chamavam no portão e eu não podia sair até que não terminasse todos os afazeres. E depois que havia terminado já não restava mais ninguém para brincar. Foi daí que comecei a criar histórias imaginárias e me recolher num mundo à parte daquela enfadonha realidade em que eu vivia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mundo da imaginação

Em uma de minhas estórias eu embarcava numa nave espacial e viajava pelo espaço celeste conhecendo novos planetas e outras civilizações.

Numa dessas viagens eu desembarcava num mundo habitado apenas por crianças. Lá tudo era divertido, sem adultos ranzinzas, trabalho forçado ou tarefas escolares. Os habitantes de lá brincavam o dia todo, livres de qualquer preocupação.  E quando a noite chegava todos se reuniam em círculo para ouvir e contar histórias antes de dormir.

Então, eu repetia a eles a história do tio Nando e eles ficavam muito apreensivos a princípio, mas depois achavam estranho que alguém morresse, lá ninguém morria, nem mesmo os gatos nem os cachorros que eram os nossos melhores amigos.

Com o tempo fui percebendo que a imaginação é um bom lugar para se morar, diferente da realidade ela é um lindo mundo à parte, pena não poder me mudar de vez para lá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aniversário

De olhos fechados fiz meu pedido. Espero que alguém se lembre no ano que vem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Surpresa

Abri os olhos com alguém batendo palmas no portão e chamando por minha mãe, respondi que ela estava no trabalho e que voltaria só no final do dia.  Minha intuição era um porvir que nunca viesse, mas veio com um véu escuro a estender-se no cair da noite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Órfão

“Ele estava embriagado e o Fusca capotou numa curva em alta velocidade, sinto muito”. Não sei dizer o que senti naquele momento, foi um misto de surpresa, incredulidade e vazio. Não consegui chorar, minha mãe tampouco. Sequer nos abraçamos, não era o hábito. Antes de nos deitarmos para esperar por um sono que não viria, ela pegou o rosário na cabeceira da cama e o envolveu entre os dedos. Pela primeira vez eu fiz questão de acompanhá-la. “Pai Nosso, que estais no céu...”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Livre

Na escola, Dona Gertrudes me deu um abraço meio sem jeito, estranhei sua atitude, mas aceitei o carinho. Durante o recreio fui chamado na orientação, a orientadora não tinha mais o característico olhar severo e amedrontador. Ofereceu-me biscoitos e perguntou como eu estava. Logo intuí sua intenção, mas não sabia o que dizer.  Respondi, meio acanhado, que sim, que estava bem. Ela pediu que se eu precisasse de algo que a chamasse e se prontificou a me ajudar com os estudos, o ano já vinha ao cabo e não convinha descuidar, em seguida me liberou para o intervalo. 

Solto no pátio eu me via livre das agruras do destino e dos percalços do caminho. Meus amigos cheios de vida e energia me puxavam para a leveza de nossas infâncias, nossas existências eram um aqui e agora imersas na pujante exatidão do tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um novo amigo

Quando voltava da escola, a dona Claudete me chamou do portão e falou que tinha uma surpresa para mim. Ela me entregou um envelope com um livro dentro e disse que esperava que eu gostasse do meu novo amigo. Agradeci sua gentileza e corri para casa com o presente embaixo do braço. Comi às pressas e tratei de terminar o serviço o quanto antes para começar sua leitura. O livro contava a triste história de um garoto que, assim como eu, se sentia órfão de pai e mãe.

Percebi que a solidão e o desamparo se estendiam para além da minha casa. Que as famílias, embora diferentes, lidavam com problemas mais ou menos semelhantes. Dona Claudete tinha razão, o livro se tornou um grande amigo com quem pude conversar por muitas e muitas vezes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mudança

Dali alguns dias minha mãe me chamou e disse que iríamos nos mudar para a capital, lá estavam meus avós maternos e as oportunidades de recomeçarmos uma nova vida. “Amanhã vou à escola pedir sua transferência”. Eu que já havia perdido o companheiro Samba e meu pai, agora me preparava para perder todos meus amigos e o olhar afetuoso de Dona Claudete com quem eu adorava estar.

Mais uma vez a sensação de tristeza e vazio se apossaram de mim. Sair dali representaria a perda do meu mundo e eu não sabia se conseguiria me encontrar num outro lugar. Chorei de forma contida e resignada sem que minha mãe percebesse. Ela era uma Fênix a ressurgir das cinzas, não queria, eu, estragar seu esperançoso voo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Despedida

Dona Claudete me envolveu num longo abraço, eu me deixei estar ali, entregue por todo o tempo como se quisesse estendê-lo até a eternidade. Depois vi seus olhos inundados de adeus. Os meus, então, transbordaram. Prometi a ela que continuaria me aplicando nos estudos, que mandaria cartas contando as novidades e que jamais a esqueceria.

Hoje relatando essas memórias, cumpro minha promessa, e esteja ela onde estiver que receba essa história como uma última missiva que lhe envio repleta de amor e muita, muita gratidão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passado e Futuro

Sentado na cabine de um caminhão, acenei para o Pedro, o Juca e o Paulo. Quando o motorista deu a partida, eles correram atrás por vários metros até cansarem-se. Pelo retrovisor eu os via ficando cada vez mais distantes e diminutos, até não poder mais distingui-los. No para-brisas uma estrada longa e sinuosa tracejava o futuro. Painéis publicitários anunciavam o Natal, tempo de renovação. O ano se findava, assim como um ciclo que se fecha, deixando apenas as lembranças do que passou.

 

 

 

Fim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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